Por Marcelo Queiroz, presidente do Sistema Fecomércio RN
Antes de qualquer palavra, há o gesto. E, no Sesc Mesa Brasil, o gesto se repete todos os dias: recolher, cuidar, redistribuir. Amplamente reconhecido como um dos maiores e mais relevantes programas de combate à fome e ao desperdício de alimentos da América Latina, o programa escreve sua história no Rio Grande do Norte não apenas com números capazes de preencher planilhas, mas com ações que enchem panelas e pratos de milhões de pessoas.
De janeiro a novembro de 2025, mais de 1,4 milhão de quilos de alimentos encontraram destino certo, superando em 13% o que estava previsto para o ano. Cada quilo carrega uma pequena vitória contra o desperdício e uma resposta concreta à fome. Não se trata apenas de volume, mas de constância: uma engrenagem social que funciona porque há confiança, método e compromisso coletivo.
Quando olhamos para trás, o percurso impressiona. Desde 2003, o Sesc Mesa Brasil já distribuiu, somente no Rio Grande do Norte, mais de 25 milhões de quilos de alimentos, alcançando cerca de 3,2 milhões de pessoas. São resultados que ocupam os armários das cozinhas comunitárias, instituições sociais e casas simples. Hoje, essa rede se sustenta com mais de 300 parceiros — empresas que doam, instituições que recebem, profissionais que organizam, voluntários que acreditam.
Somente no ano passado, quando completou duas décadas de atuação, foram mais de 1,5 milhão de quilos distribuídos e mais de 380 mil pessoas atendidas. Há algo de silenciosamente poderoso nisso: transformar o que seria descartado em sustento; converter excesso em cuidado. O Mesa Brasil faz do combate ao desperdício, uma ética, e da solidariedade, uma prática cotidiana.
Mas o programa não se limita ao presente imediato. Hoje, ele também semeia futuro. Em 2025, o Sesc RN deu início a uma nova etapa ao firmar parceria com a Emater para implantar o projeto Horta Sesc Mesa Brasil em instituições de Natal e Mossoró. São projetos ainda em construção, como toda semente recém-plantada. Porém, o investimento financeiro, o apoio técnico, as oficinas e o acompanhamento permanente apontam para algo maior: autonomia, educação alimentar, respeito ao tempo da terra. As hortas não são apenas produção; são aprendizado, pertencimento e cidadania.
Com isso, gosto de pensar que o Mesa Brasil trabalha com dois tempos. O do agora — quando o alimento precisa chegar — e o do amanhã, quando ensinar a produzir também é uma forma de combater a fome. Essa combinação explica por que o programa atravessa décadas sem perder sentido. Ele não improvisa solidariedade; ele a organiza.
Como presidente do Sistema Fecomércio RN, acompanho essa trajetória com convicção. Sei que fortalecer o Sesc Mesa Brasil é fortalecer o próprio tecido social do nosso estado, trazendo segurança alimentar, dignidade, base para o desenvolvimento, consumo consciente e equilíbrio econômico.
Seguiremos, portanto, fazendo o que sempre fizemos: conectando quem pode doar a quem precisa receber e transformando excesso em cuidado. Combater a fome não é um ato extraordinário, mas um compromisso permanente. No fim, uma sociedade se revela não pelo que acumula, mas pelo que decide partilhar.
Artigo publicado no jornal Agora RN