Artigos do Presidente

21 de setembro de 2026

O preço das bets

Marcelo Queiroz, presidente do Sistema Fecomércio RN

As apostas on-line tornaram-se parte do cotidiano de milhões de brasileiros. A facilidade de acesso, a publicidade constante e a promessa de ganhos rápidos transformaram as bets em um mercado expressivo. Seus efeitos, porém, ultrapassam as telas: alcançam o orçamento das famílias, a capacidade de pagamento e o comércio.

Quando parte da renda vai para as apostas, diminui o espaço para alimentação, roupas, medicamentos e outros bens e serviços. Cresce também o risco de atraso nas contas e agravamento do endividamento. No comércio, sobretudo entre os pequenos negócios, isso aparece em menos vendas, compras adiadas e dificuldades dos clientes para manter compromissos em dia.

Levantamento da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo estima que as plataformas movimentaram perto de R$ 700 bilhões entre janeiro de 2023 e março de 2026. Como incluem valores devolvidos aos apostadores em prêmios, esses montantes não equivalem ao lucro das empresas nem à perda efetiva das famílias. Ainda assim, revelam a dimensão desse mercado.

Já uma análise do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da FEA-USP adota outra medida: a transferência líquida de recursos das famílias para as plataformas, estimada em R$ 62,5 bilhões em 2025. A partir desse valor e de cenários de consumo por faixa de renda, o estudo calcula que as bets podem ter reduzido a atividade econômica brasileira em até R$ 141 bilhões naquele ano.

Esse exercício mostra como o dinheiro que não retorna às famílias, deixa de financiar parte do consumo e perde força para movimentar empresas, sustentar empregos e gerar arrecadação. O efeito é mais sensível entre as famílias de menor renda.

Há ainda um impacto que não pode ser ignorado: o da saúde mental. Para alguns, a relação com as apostas deixa de ser ocasional e passa a comprometer o equilíbrio emocional, as relações familiares e a vida profissional. Ansiedade, depressão, culpa e isolamento estão entre as consequências associadas. Essa questão ultrapassa a esfera individual e se apresenta também como um problema de saúde pública.

A preocupação mobiliza o setor produtivo. No início deste mês, a CNC levou o tema ao presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, relatando impactos percebidos por empresários e defendendo maior controle das apostas on-line. Entre as medidas apresentadas estão o combate às plataformas ilegais, o aperfeiçoamento da fiscalização, regras mais rigorosas para publicidade e mecanismos de prevenção e tratamento da dependência.

Não se trata de condenar quem aposta nem de ignorar uma atividade regulamentada. Trata-se de reconhecer que um mercado com tamanha presença no orçamento das famílias precisa ser acompanhado com responsabilidade, transparência e proteção ao consumidor.

Cuidar da saúde financeira das famílias também é preservar o consumo, a sustentabilidade dos pequenos negócios e a capacidade de crescimento da nossa economia. O preço das bets não pode ser medido apenas pelo que ocorre nas plataformas, mas também pelos efeitos que produz na vida das pessoas e na economia real.

Outros artigos

Ir para o conteúdo
Fecomércio RN
Visão geral de privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações dos cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você acha mais interessantes e úteis.