Coco de Zambê de Tibau do Sul é destaque no Circuito Sonora Brasil do Sesc

Esta é a primeira vez que um grupo potiguar participa do projeto. Em 2017, o Coco de Zambê fará 55 apresentações percorrendo o Norte e o Nordeste.

Uma expressão cultural que chegou aos engenhos de cana-de-açúcar e colônias pesqueiras da região de Tibau do Sul através de africanos escravizados. Esse é o Coco de Zambê, um ritmo trazido da África e que sobrevive até hoje por meio do grupo do Mestre Geraldo Cosme.

Para mostrar esse ritmo para todo Brasil e não deixar morrer a tradição, o grupo foi selecionado para participar do Circuito Sonora Brasil, projeto promovido pelo Sesc com o objetivo de estimular um olhar mais atento e crítico sobre a produção e difusão musical no país, valorizando o capital humano e conteúdos locais, promovendo a descentralização da produção por difundir a música por todo o país e para lugares distantes dos grandes centros. O lançamento nacional da nova temporada do Sonora Brasil acontece no próximo dia 24, no Teatro Sesc Palladium, em Belo Horizonte.

Em 2017, o grupo potiguar fará apresentações em 55 cidades do Norte e Nordeste e em 2018, segue para o Sul, Sudeste e Centro-Oeste do país. Esta é a primeira vez que um grupo potiguar participa do projeto que promove a difusão da cultura musical brasileira.

Para viabilizar a participação do grupo no projeto, o Sistema Fecomércio RN, por meio do Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Norte (Sesc RN), doou enxovais para a viagem, contendo mala, bermuda, meias, sapato, agasalho e calça jeans. O grupo inicia sua turnê pela cidade de Porto Velho.

José Cosme Neto, um dos integrantes do grupo diz que essa é uma oportunidade de não deixar a tradição se perder. “É um prazer imenso fazer parte do Sonora Brasil, é uma honra. Não é todo grupo que tem esta oportunidade. Vamos passar por diversas cidades do Brasil e fazer com que nosso trabalho seja ainda mais conhecido. Eu estou sonhando que chegue este dia”, conta ele.

O patriarca da família, Mestre Geraldo Cosme, já com 82 anos, passou a tradição para os seus filhos. “A gente não pode deixar a tradição se perder, nós assumimos e temos que passar para os nossos filhos. O Zambê é uma dança muito popular e muito antiga, da época dos avós da gente, da época da cana-de-açúcar “, diz orgulhoso o filho Josenilson Cosme, o Jonas.

Sonora Brasil

Em sua 20ª edição, o projeto Sonora Brasil apresenta os temas Na pisada dos cocos e Bandas musicais: formações e repertórios que serão desenvolvidos no biênio 2017/2018 com a participação de quatro grupos em cada tema.

Coco de roda, samba de coco, coco de zambê, coco de pareia, coco furado, coco de embolada…são muitas as variantes que justificam a denominação “cocos”, sempre no plural. Na pisada dos cocos apresenta variantes desta expressão lítero-cênico-musical típica da região Nordeste do Brasil trazendo dois grupos que praticam cocos do litoral e dois do interior.

O projeto Sonora Brasil busca despertar um olhar crítico sobre a produção e sobre os mecanismos de difusão da música no país, incentivando novas práticas e novos hábitos de apreciação musical, promovendo apresentações de caráter essencialmente acústico, que valorizam a autenticidade sonora das obras e de seus intérpretes.

Desde sua criação, o Sonora Brasil já realizou 5.319 apresentações de 80 grupos, alcançando cerca de 520 mil espectadores.

Coco de Zambê

Como tantas manifestações da tradição oral, o Coco de Zambê correu o risco de desaparecer, mesmo tendo se constituído durante décadas como importante elemento identitário de comunidades quilombolas da região de Tibau do Sul. Seu ressurgimento ocorreu no final do século XX a partir da iniciativa de pessoas preocupadas com seu desaparecimento. Neste contexto foi fundamental a determinação do Mestre Geraldo Cosme que liderando um grupo familiar retomou a prática do zambê buscando fidelidade à sua prática tradicional.

Dois tambores estão presentes na maioria dos grupos que praticam o Coco de Zambê: o próprio Zambê, também conhecido como pau furado ou oco de pau, que é maior e mais grave, e o Chama, ambos construídos artesanalmente com troncos de árvores da região.

A música se caracteriza como um canto responsorial, puxado pelo mestre e respondido pelo coro de vozes, e a dança acontece numa roda que mantém ao centro os tocadores. Os brincantes se revezam reverenciando o tambor e realizando passos livres de grande energia que lembram movimentos da capoeira e do frevo. Uma de suas principais características é o fato de ser praticado apenas por homens.