A face mais cruel da crise econômica gerada pela pandemia

 

Por Marcelo Queiroz

Presidente do Sistema Fecomércio RN

 

Na semana que passou, foram divulgados os números do desemprego no nosso Estado. São dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, a PNAD, do IBGE. E eles preocupam. Muito! Atingimos, em junho, 13,8% de desempregados. É o maior índice desde o final de 2016, quando havíamos registrado 14,1%. Traduzido em números absolutos, estamos falando de um exército de 295,32 mil potiguares em idade de trabalhar, que buscam uma ocupação e simplesmente não a encontram.

Tão preocupante – ou até mais – que o contingente total de desempregados no RN, é o número de novas pessoas lançadas nesta condição ao longo da pandemia. Para se ter uma ideia, em fevereiro deste ano, segundo a mesma PNAD, tínhamos 248,24 mil pessoas sem ocupação e sem renda no Estado. Isso quer dizer que, de março a junho, a crise da pandemia do Covid-19 empurrou para a desocupação nada menos que 47,08 mil norte-rio-grandenses.

Para efeito de comparação, entre os anos de 2015 e 2018, auge da crise econômica mais recente antes da pandemia, perdemos pouco mais de 18 mil postos formais de emprego. Isso quer dizer que, em quatro meses de paralisação da nossa economia em virtude da Covid-19, fechamos 2,5 vezes mais de vagas nos empregos do que em três anos de uma crise econômica da qual começávamos a nos recuperar no início deste ano.

Este artigo foi publicado em 18 de agosto de 2020 no jornal Tribuna do Norte

Cabem aqui dois registros extremamente importantes. O primeiro é que nenhum empregador desliga um colaborador por livre escolha. Tenhamos certeza de que cada uma destas 47 mil ocupações foi ceifada exclusivamente em virtude da extrema dificuldade até mesmo de manter aberto o negócio que a sustentava. Muitas delas, aliás, aconteceram como derradeira solução para preservar alguns outros postos, numa espécie de último suspiro na luta contra a falência total que ronda tantos empreendimentos Brasil afora.

O segundo registro é que, infelizmente, tudo leva a crer que esta onda de perda de postos de trabalho ainda não se encerrou. Nossa luta é para que ela se atenue e se estenda pelo menor tempo possível.

Por tudo isso, não tenho dúvidas de que esta é a face mais cruel da pandemia e, também, a que merece o maior empenho de todos nós para ser enfrentada. Estes mais de 47 mil potiguares que perderam suas rendas, claramente ajudaram a engrossar as fileiras dos beneficiados do auxílio emergencial do Governo Federal, uma panaceia que tem sido o bálsamo não apenas de milhões de pessoas país afora, como também um sustentáculo para a nossa atividade econômica.

E este é outro ponto crítico de todo o contexto. A ocupação, junto com a renda que ela gera, é peça-chave para qualquer economia.  Não à toa, o consumo das famílias responde por mais de um terço do PIB brasileiro. E tem sido graças a ele que vínhamos conseguindo registrar crescimentos, mesmo que pequenos (os já famosos “pibinhos”), nos dois últimos anos.

No caso do Rio Grande do Norte, estes mais de 47 mil trabalhadores que ficaram sem ocupação e sem renda em virtude da pandemia, conseguiram manter, minimamente, seus níveis de consumo graças ao auxílio emergencial, que ajudou a compor o orçamento de mais de 53% das famílias do nosso Estado. Mas, como sabemos, este benefício é finito. E já tem data para acabar: o final de agosto.

O que será destes trabalhadores a partir daí? O programa de renda mínima que o Governo Federal está gestando, além de depender de uma série de pontos ligados à arrecadação da União, deverá abranger apenas cerca de um terço dos mais de 56 milhões de beneficiários do auxílio emergencial.

Resta, portanto, uma única saída: o setor produtivo precisa retomar sua capacidade de gerar emprego e renda. E, para isso, depende de uma retomada gradual, segura e responsável das atividades  – o que já estamos fazendo – e, principalmente, da continuidade da ação dos Poderes Públicos, que precisam reduzir os custos fiscais e tributários, garantir salários em dia dos servidores e o pagamento dos seus fornecedores e, sobretudo, retomar investimentos públicos, de modo a fazer circular novos recursos no mercado.

Este é o compromisso que todos nós precisamos cobrar. Sem eles, os impactos de longo prazo desta crise serão muito mais longevos que podemos suportar. E deixarão sequelas permanentes em todos nós.